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Clube de Biologia e Geologia
Serra de S. Mamede

Um projecto prático de educação ambiental (Revista aprender nº 13) (1991)

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UM PROJECTO PRÁTICO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Maria Helena Reis Freire*

* Professora do Ensino Secundário, Animadora e co-fundadora do Clube de
Biologia e Geologia da Serra de S. Mamede.

[Revista APRENDER, n.º 13, 1991, págs. 45-48. Secções: "EDUCAÇÃO AMBIENTAL"
(págs. 45 e 47) e "TEMA CENTRAL" (págs. 46 e 48)]

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1 - O CLUBE DE BIOLOGIA E GEOLOGIA SERRA DE S. MAMEDE [pág. 45]
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Numa cidade do interior, como Portalegre, onde escasseavam actividades de
tempos livres que implicassem os jovens de uma maneira válida, surgiu em Junho
de 1983 O Clube de Biologia e Geologia Serra de S. Mamede para dar resposta
àquela necessidade. Se, por um lado, a preocupação de aproveitamento de tempos
livres esteve presente na formação desta associação, por outro lado, a
situação geográfico da cidade de Portalegre também levou os seus fundadores e
animadores a equacionar outros objectivos. Na altura, poucos eram os que
estavam conscientes da riqueza florística e faunística da Serra de S. Mamede.

As populações locais estavam divorciadas desta realidade e, por isso, era
necessário que os jovens não só a conhecessem mas que fossem, também, um polo
de animação desta zona, sob o ponto de vista ambientalista. Para a conhecer
pretendia-se que os jovens fossem os sujeitos da sua educação ambiental,
implicando-os em projectos de carácter cientifico ligados à Serra de S.
Mamede. Assim, a associação surgiu como um clube científico fora da Escola que
não era mais do que um reflexo do mundo de hoje onde a Ciência desempenha um
papel relevante.

Os jovens curiosos, querem compreender o porquê dos fenómenos naturais; ora,
um clube científico pode ajudá-los a dar as respostas que necessitam nesses
domínios.

No interior do clube cada membro tem a possibilidade de exprimir ideias,
efectuar um trabalho de equipa, realizar os seus projectos não só para
satisfação pessoal mas também para a aquisição de novos conhecimentos, além da
administração e da organização da associação.

Os animadores surgem, neste contexto, como centros de recursos, mantêm a
estabilidade, fazem a ligação quer entre os membros actuais e estes e os que
por lá passaram, levantam problemas, ajudam a solucionar questões, são os
amigos em quem os jovens se apoiam.

Na altura em que se formou O Clube de S. Mamede surgia em embrião, a nível
internacional, um movimento de tempos livres científicos e técnicos. Assim, em
1985, na cidade de Toulouse, em França, no 1º Encontro Internacional das
Ciências e da Juventude, o clube participou com uma exposição intitulada
"Aspectos bio-geo-ecológicos da Serra de S. Mamede", resultante do trabalho já
efectuado nos dois anos da sua existência. Foi, então, convidado a participar
nas reuniões preparatórias do lançamento do movimento e tomou contacto com o
que existia neste domínio no mundo.

Verificou-se que, apesar de ser um movimento ligado à juventude, as crianças [pág. 46]
também não eram esquecidas. Elas podiam já fazer uma iniciação à Ciência, uma
aprendizagem e começavam a adquirir novas atitudes.

Surgiu, nesta sequência, em 1987, no Clube, uma secção infantil.

Tratando-se, neste número da revista "Aprender", o tema "Educação Ambiental"
penso que teria interesse seleccionar um dos projectos desenvolvidos por este
clube, de natureza interdisciplinar, ligado à Serra de S. Mamede.

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2 - PROJECTO "À DESCOBERTA DO RIO SEVER"
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O método de animação que tem sido utilizado compõe-se das seguintes fases:

a) Fase de contacto, na qual os jovens contactam com o meio exterior
sensorialmente, conhecem a zona geograficamente, ficando, assim,
sensibilizados para os diversos aspectos da Serra de S. Mamede.

b) Fase de investigação que surge depois dos jovens observarem fenómenos
naturais; eles seleccionam ôs que mais lhes interessam, fazem novas
observações, realizam pesquisas em documentos, elaboram e aplicam inquéritos e
fazem experimentações.

A partir dos resultados obtidos, tiram conclusões.

Depois de realizada a fase de contacto, os jovens mostraram particular
interesse pelo Rio Sever e assim surgiu, em 1988, um projecto pluridisciplinar
ligado ao referido curso de água. Este projecto tem ocupado nestes últimos
anos uma parte importante de vida do Clube de S. Mamede.

O Rio Sever nasce na Serra de S. Mamede, toma várias designações ao longo do
seu percurso, faz, a dada altura, fronteira entre Portugal e Espanha e vai
desaguar no Tejo. A parte do rio que tem sido estudada situa-se nas imediações
do Restaurante "O Sever" num percurso de cerca 1.500 metros. Há vários grupos
de trabalho um dos quais se tem dedicado ao estudo das plantas, relacionadas
com as estações do ano e com a proximidade do rio. Outros estudam os animais,
a água e a influência que o Homem exerce e tem recebido do rio. As crianças
também acompanham o estudo do rio, observam "in-loco" os diferentes aspectos
que têm estado a ser referidos, fazem colecções de folhas, das plantas e das
árvores do rio, classificando-as segundo a forma, nervura e recorte.

[fotografia: mata ribeirinha junto ao rio — legenda: "O rio Sever"]

2.1 - Plantas e animais

A título de exemplo, referem-se algumas das muitas plantas que têm sido
encontradas. Logo no início do ano, aparecem as margaridas do monte (Bellis
sylvestris C.Y.R.) e, um pouco mais tarde, salpicando as diferentes
tonalidades de verde existente, surge a pervinca (Vinca L.) com as suas flores
azuis que, desde a antiguidade tem sido usada como planta medicinal; igual
utilização tem a erva das verrugas (Chelidonium majus L.) com as suas flores
amarelas.

Na Primavera encontra-se a Dedaleira (Digitalis purpúra L.), cujas flores
purpúreo-rosadas se dispõem em cacho e nas margens, salpicando a paisagem, as
espátulas do jarro (Arum itálicum, Miller), além das minúsculas flores do
morrião (Anagallis arvensis L.). Em recônditos mais húmidos é possivel
observarem-se tufos do Feto-macho (Dryópteris felix mas, (L.) Schott) e, entre
as pedras dos muros a Doirdinha (Ceterach officinarum D. C.).

Convém, ainda, referir uma comunidade de choupos (Populus alba L., Pópulos [pág. 47]
migra L.) que acompanha o rio nas suas margens. Ainda nas proximidades é
notável a quantidade de nogueiras (Juglans régia L.) existentes e junto às
quais, durante o Inverno, cultiva-se a aveia. Nos meses de Novembro, Dezembro
e mesmo em Janeiro é possível observarem-se várias espécies de cogumelos que
brotam quer junto ao solo, quer no tronco das árvores; destes, podem
destacar-se entre outros as Febras (Agaricus compestris (Psalliota)) e a
Língua de vaca (Fistulina hepática).

Entre as árvores, esvoaçando em grandes quantidades, aparecem os Verdilhões
(Carduelis chloris), às Alveolas-cinzentas (Motacilla cinera), os Chapins -
reais (Parus major), os Pintassilgos Comuns (Carduelis Carduelis) e as
Felosas comuns (Phylloscópus collibita); junto às casas é vulgar
encontrarem-se as andorinhas das chaminés (Hirundo rústica). Ainda é possível
observar a Garça-real (Ardea cinerea), o Guarda-rios (Alcedo atthis) o Cartaxo
(Saxicola Torquata), o Pisco (Erithacus rubecula) e o Melro (Turdus merula).

[fotografia: legenda — "Um grupo em actividade junto ao rio Sever"]

2.2 - O homem e o rio

Um rio é um ecossistema complexo no qual a acção humana se exerce através de
várias interferências. Por isso, neste projecto também se tem investigado a
relação que as populações locais têm com o rio Sever e vice-versa.

Ao longo das suas margens existe uma notável colecção de moinhos de água, um
dos quais ainda se encontra em actividade.

Eles foram em épocas passadas importantes na actividade industrial da região,
para os quais se deslocavam populações, mesmo afastadas da zona, para moerem
os cereais.

Dentro da água do rio é também possível, ainda hoje, encontrarem-se varas de
castanheiros que alimentam uma indústria artesanal, a de fabrico de canastras,
que se encontra em extinção.

A recolha de quadras populares relacionadas com o rio Sever assim como de
lendas é feita pelos jovens em contacto com as populações locais.

Uma dessas lendas diz que um numeroso cortejo de ilustres damas e cavaleiros
que seguia para Castela, resolveu descansar das fadigas da viagem, nas margens
de um rio que corria ora agitado, ora calmo no sopé das escarpas do Marvão.
Quando as damas quiseram pentear-se viram que não tinham trazido na bagagem
nenhum espelho. Um cavaleiro, cortêsmente, lembrou-lhes que o facto não era
motivo de tristeza visto que ali bem perto elas tinham um rio digno de SE VER.
Parece que assim surgiu o nome do rio Sever.

2.3 - A água do rio

As águas deste rio eram de tal modo límpidas e frias que a truta (Truta fario)
habitava neste percurso de água doce. Vítima de uma pesca selvagem ela deixou
de lá viver.

O Clube de Biologia e Geologia Serra de S. Mamede tem realizado análises de
água do Rio Sever numa zona a montante do Restaurante "O SEVER". Verificando-se
que o PH é neutro, oxigénio dissolvido varia entre 4,1mgl e 11mgl, com
ausência de amónia, percentagens muito baixas de nitritos, com temperaturas
que oscilam ao longo do ano entre 7C e 18C, o que nos permite afirmar que este
rio, nesta zona, continua a ser um curso de águas límpidas, com condições para
que a truta lá possa existir.

Assim, no ano transacto foi possível fazer-se um povoamento com 8.000 trutas.

[fotografia: composição feita com folhas de árvores — legenda: "O rio Sever [pág. 48]
visto por um grupo de crianças (trabalho efectuado com folhas de árvores)"]

2.4 - Intercâmbio juvenil e o rio

Se, por um lado, os jovens e as crianças estudam o rio Sever, também se tem
pretendido que as populações locais tomem consciência da riqueza natural que
ali existe. Por isso, realizou-se um acampamento em Julho 1988 onde
participaram também jovens de uma associação do Sul de França.

Neste acampamento foram feitas investigações sobre os tipos de casas, de
habitação, saneamento básico, tipos de propriedades, tipos de culturas, campos
abandonados, agricultura tradicional e modificações actuais, actividades
profissionais da região, índice de alfabetização, festas características e
associações culturais e desportivas. Estes temas foram apresentados,
utilizando dramatizações perante a população local, convidados e pais.

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3 - EDUCAÇÃO AMBIENTAL
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A Educação Ambiental nesta associação surge como uma forma activa da
aprendizagem em que as actividades se desenvolvem no terreno, com um apoio em
laboratório, utilizando guias de campo, máquinas fotográficas, binóculos,
reagentes para análise de águas, etc...

No entanto, ela também tem implicado as populações locais.

Assim, no que se refere à divulgação da Serra de S. Mamede, tem-se feito
exposições de painéis, programa de rádio, colóquios, quer com especialistas,
quer com membros do clube.

Desta forma deu-se a conhecer um dos projectos que tem polarizado a atenção
dos jovens e animadores e, com ele, levá-los a conhecer e amar a Natureza.

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