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Clube de Biologia e Geologia
Serra de S. Mamede

Excursão geológica à Serra de S. Mamede (Prof. Francisco Gonçalves)

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EXCURSÃO GEOLÓGICA À SERRA DE SÃO MAMEDE

A serra de São Mamede, relevo importante e complexo, com cerca de 40 km de
extensão e pouco mais de uma dezena de quilómetros de largura, situa-se sobre
a fronteira luso-espanhola, destacando-se da peneplanície que a rodeia.

O essencial da serra fica aquém fronteira, mas alguns contrafortes penetram em
território espanhol e cristas pouco salientes prolongam-se nele por muitos
quilómetros, com direcção NW-SE, que denuncia a deformação hercínica que
afecta os terrenos geológicos que formam este relevo.

A serra é constituída por uma parte granítica, a sudoeste, que se estende
desde Portalegre e Fortios, por Ribeira de Nisa e Carreiras, até à crista
situada a sul de Castelo de Vide, que compreende os granitos de Portalegre e
de Castelo de Vide, e por uma parte, a maior, de terrenos ordovícicos,
silúricos e devónicos. A primeira eleva-se a pouco mais de 800 m, a segunda
vai a 1027 m no v.g. de São Mamede e tem muitas cristas e rechãs acima dos
800 m.

O relevo da serra está, em grande parte, condicionado pela sua constituição
geológica. Por isso, o acidente morfológico continua-se por Espanha, onde têm
continuidade os terrenos paleozóicos que, no nosso país, constituem o seu
núcleo principal. O vigor deste relevo está, também, relacionado com acidentes
tectónicos dos quais se salienta o cavalgamento de Portalegre que separa duas
zonas do Maciço Hespérico com características paleogeográficas, estruturais e
tectónicas distintas: a zona Centro-Ibérica e a zona de Ossa-Morena.

O objectivo da excursão é observar o limite da zona de Ossa-Morena com a zona
Centro-Ibérica, o granito tectonizado de Portalegre e o núcleo do sinclinório
ordovícico-silúrico-devónico de Portalegre.


LIMITE DA ZONA DE OSSA-MORENA COM A ZONA CENTRO-IBÉRICA

1. Este limite é marcado pelo cavalgamento de Portalegre que põe em contacto
anormal os xistos do Precâmbrico superior e os quartzitos do Ordovícico.
Este acidente profundo provoca deformação com esmagamento das rochas da
vizinhança do contacto; veja-se, por exemplo, o aspecto do granito
tectonizado de Portalegre na vizinhança do acidente que se apresenta
milonitizado e às vezes xistificado. Teremos ocasião de confrontar este
granito com rocha idêntica aflorante em Portalegre.


GRANITO TECTONIZADO DE PORTALEGRE

2. As rochas graníticas dispõem-se em maciços alongados segundo a orientação
hercínica predominante, separados por terrenos precâmbricos e ordovícicos
afectados pelas mesmas fases de dobramento. Os granitos foram, como se
disse, atingidos, pelo menos, pela segunda fase hercínica, apresentando
grau de tectonização diferente. Há faixas muito tectonizadas, alternantes
com outras que, aparentemente, não apresentam sinais tão acentuados de
tectonização.

No afloramento de Portalegre constituído por granitos alcalinos há rochas
porfiróides e não porfiróides (que observaremos na paragem seguinte). Os
granitos estão mais ou menos granulados por esmagamento dos cristais
iniciais. A deformação atinge os feldspatos, o quartzo e de maneira mais
evidente as micas presentes, moscovite e biotite.

3. Na periferia do granito porfiróide ocorre granito de grão médio a fino, não
porfiróide (Granito de Carreiras). Trata-se de rocha também alcalina em que
os feldspatos são, sobretudo, microclina fortemente pertítica, albite e
albite-oligoclase. O quartzo é abundante.


IDADE DO GRANITO TECTONIZADO DE PORTALEGRE

4. Carlos Teixeira admite que os primeiros sedimentos do Ordovícico se
depositaram sobre formação resultante da capa superior do granito
desagregado e remexido, às vezes, com raros calhaus de quartzo, com
passagem gradual da arcose aos quartzitos de bilobites que lhe sucedem.
Assim, pelo menos, segundo este autor, o granito de Carreiras (em contacto
directo com o Ordovícico) seria ante-ordovícico. Vamos observar o corte da
estrada que liga a Senhora da Penha a Alpalhão.


OBSERVAÇÕES NO NÚCLEO DO SINCLINÓRIO ORDOVÍCICO-SILÚRICO-DEVÓNICO

5. Falha de Castelo de Vide

Acidente tectónico que rejeita as cristas quartzíticas da Senhora da Penha;
sobre ele situam-se as nascentes de água de Castelo de Vide. Esta falha
segue-se para sul até para lá de Fronteira, estando nalguns locais
preenchida por filão de quartzo.

6. Aspecto dos xistos do Silúrico no flanco sudoeste do sinclinório. Notar que
estão mosqueados, sendo as moscas provavelmente cristais de andaluzite, por
se situarem na zona de metamorfismo de contacto do granito de Aldeia da
Mata-Nisa-Castelo de Vide. Este granito é posterior ao dobramento e ao
metamorfismo regional e recorta não só os metassedimentos do Precâmbrico e
do Paleozóico como os granitos tectonizados observados nas paragens
anteriores. Trata-se de granito calco-alcalino, de duas micas,
predominantemente biotítico. Os minerais essenciais são quartzo,
oligoclase, albite-oligoclase, etc. Há uma determinação de idade absoluta
que deu 284±5 M.A., enquanto o granito tectonizado de Portalegre (granito
da piscina) deu 466±12 M.A.

7. No núcleo da estrutura existem calcários atribuídos ao Devónico médio que
se observam na pedreira de Escusa. São calcários dolomíticos com geodes de
calcite provável. Observar pequena gruta neste, com estalactites.

8. Xistos de graptolitos do Silúrico do flanco nordeste da estrutura. Em
xistos ampelitosos e grafitosos observam-se fósseis mal conservados do
género Monograptus, a nordeste de Portagem, que permitem datar os terrenos
deste sistema.

9. Quartzitos ordovícicos de Marvão que se prolongam em crista para as
Esparoeiras. Notar a mudança de direcção das bancadas quartzíticas em
relação com dobra anticlinal. O flanco nordeste desta dobra é cortado pelo
granito de Castelo de Vide que atrás se referiu.

10. Voltamos ao núcleo do sinclinório para observar os terrenos do Devónico,
constituídos por xistos argilosos, arenitos, quartzitos e calcários
dolomíticos (já observados na paragem 7). O Devónico é muito fossilífero,
nomeadamente na região de São Julião. A fauna do Devónico de Portalegre
compreende trilobites, braquiópodes muito numerosos, lamelibrânquios,
crinóides, etc. Estes últimos fósseis vamos observá-los nos xistos que
afloram junto da estrada de acesso a São Julião.